As pessoas esnobam a WebSocial porque olham para ela de um modo utilitarista: "O que eu ganho", e a resposta é "menos do que nas mídias sociais imperialistas, porque existe toda uma estrutura nessas mídias que permite que seus participantes tenham algum ganho.
Claro, esses ganhos são sempre pensados em termos objetivos e quantitativos. É difícil "vender" a WebSocial porque o que conseguimos com ela não é um Retorno Sobre Investimento (ROI) quantificável em Indicadores Chave de Performance (KPI) que você consegue plotar gráficos.
Grupos políticos olham para a internet de um modo utilitarista não só por conta da ideologia, mas porque esses grupos possuem objetivos, e precisam de ferramentas que permitam alcançar esses objetivos.
Só que a WebSocial como se organiza hoje é uma rejeição da aplicação da lógica de mercado da eficácia, eficiência, retorno e competição às relações humanas. Aqui o ethos é muito mais de rede social, uma infraestrutura para que pessoas possam conviver e se conhecer do que uma cópia da lógica de mercado.
Essa organização permite a construção de laços sociais melhores, que se assemelham mais a laços humanos que à distribuição de mensagens e, exatamente por isso são menos atraentes para quem quer transmitir mensagens. Quem tem possibilidade de transmitir mensagens e quer transmitir mensagens, não tem muito ganho em participar dessa rede, mesmo sabendo que sua mensagem é subalternizada nas mídias sociais imperialistas. Para que esses grupos queiram participar da WebSocial, eles precisam ver a plataforma não como um lugar onde despejar mensagens, mas como um espaço de convivência, formação de vínculos. Porque é isso que isso aqui é.
Isso quer dizer que quem se sente mais atraído são as pessoas mais subalternizadas, cujas vozes tem menos direito de circular nas mídias sociais imperialistas.
Essa radicalidade vem da própria essência da sociedade escravista. Nela não pede haver posição de negação a não ser se ela for radical. O escravo — ao negá-la — só podia fazê-lo radicalmente. Ele tem de passar subitamente da condição de coisa à homem livre. O escravismo não lhe dá a oportunidade do meio-termo. (Clóvis Moura)
Não é à toa que quem vem primeiro para a WebSocial são as pessoas mais enjeitadas nas mídias corporativas, as que mais sofriam violência nelas, as que menos tinham legitimidade em um sistema que valora os usuários a partir de seu potencial de consumo. A radicalidade da negação das premissas das mídias sociais corporativas que tornam possível usar a quilombagem como metáfora para compreender isso aqui não é a primeira opção das pessoas, mas a última. É o sistema que obriga a recusa radical daqueles que são tão excedentes que sequer são exploráveis. Essas pessoas, a quem foi recusada a promessa de comunidade que as mídias sociais imperialistas fazem que estão aqui, e percebendo aqui ser melhor, chamam esses grupos, influencers, etc. mas esses grupos "esnobam" a WebSocial não porque achem ruim, mas porque comunidade não é o objetivo deles. Eles tem possibilidade do meio-termo, eles estão na economia do capitalismo de vigilância, mesmo que em papel subalterno. Seus objetivos são melhorar sua posição relativa nas dinâmicas de circulação de discurso e produção de comportamento do capitalismo de vigilância, não abolir o sistema. E para esse objetivo, a WebSocial realmente não serve, não presta. De propósito, porque não foi feita para isso. E essa é a sua força.